Embora o foco da sociedade normalmente esteja na proteção oferecida por esses profissionais, pouco se discute sobre quem protege aqueles que estão na linha de frente.
O que dizem os estudos científicos?
Uma revisão integrativa publicada na revista Saúde e Sociedade, da Universidade de São Paulo (USP), analisou 84 estudos sobre saúde mental de policiais. Os pesquisadores concluíram que os problemas mais frequentemente encontrados foram:
Além disso, a revisão identificou que fatores relacionados às condições de trabalho exercem forte influência sobre o adoecimento psicológico desses profissionais.
A rotina que favorece o adoecimento
Entre os principais fatores de risco identificados pela literatura científica estão:
exposição constante à violência;
risco permanente de morte;
jornadas excessivas;
trabalho em escalas noturnas;
privação do sono;
cobrança por produtividade;
falta de reconhecimento profissional;
déficit de efetivo;
assédio moral;
conflitos familiares provocados pela profissão.
Na segurança privada, vigilantes patrimoniais, profissionais de escolta armada, transporte de valores e segurança pessoal privada enfrentam muitos desses mesmos fatores, somados à insegurança contratual e, em alguns casos, à baixa valorização profissional.
Burnout: uma realidade crescente
A Síndrome de Burnout é considerada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) um fenômeno ocupacional relacionado ao trabalho.
Entre profissionais da segurança, estudos mostram associação entre Burnout e:
exaustão emocional;
perda da motivação;
dificuldade de concentração;
irritabilidade;
aumento dos erros operacionais;
maior risco de acidentes.
Pesquisadores ressaltam que ambientes altamente estressantes, aliados à ausência de suporte psicológico, favorecem o desenvolvimento desse quadro.
Quando pedir ajuda é visto como fraqueza
Outro problema identificado nas pesquisas é o estigma.
Muitos profissionais evitam procurar atendimento psicológico por medo de serem considerados incapazes para o serviço, sofrerem preconceito ou perderem funções operacionais.
Esse comportamento acaba retardando o diagnóstico e o tratamento, aumentando o risco de agravamento dos transtornos mentais.
O impacto também atinge a segurança privada
Embora existam menos pesquisas específicas sobre vigilantes, especialistas em saúde do trabalhador destacam que a segurança privada compartilha diversos fatores de risco observados na segurança pública:
trabalho armado;
constante estado de alerta;
escalas prolongadas;
conflitos com o público;
exposição a assaltos e violência;
pressão psicológica contínua.
Essas condições reforçam a necessidade de políticas permanentes de promoção da saúde mental também para os profissionais da segurança privada.
Especialistas defendem ações preventivas como:
programas permanentes de apoio psicológico;
acompanhamento periódico da saúde mental;
treinamento para gestão do estresse;
combate ao assédio moral;
melhoria das condições de trabalho;
incentivo à atividade física;
promoção de qualidade do sono;
fortalecimento do apoio entre equipes.
Investir na saúde mental não beneficia apenas o trabalhador, mas também melhora a qualidade do serviço prestado à população.
Cuidar de quem protege é uma questão de segurança
A segurança pública e privada depende de profissionais preparados física e emocionalmente.
Ignorar os sinais de ansiedade, depressão, Burnout ou estresse extremo coloca em risco não apenas o trabalhador, mas colegas, empresas e toda a sociedade.
Promover uma cultura de acolhimento, prevenção e cuidado é investir em uma segurança mais eficiente, humana e sustentável.